Vocações: eco do Espírito Santo no mundo | Artigo Mensal

Estamos iniciando o mês de agosto e com ele a celebração de todas as vocações na Igreja: matrimonial, sacerdotal, religiosa e leiga. Todas essas vocações são fundamentais na vida eclesial, nascida da vocação batismal são o eco do Espírito Santo no mundo.

E a voz do Senhor continua a ecoar em nossos ouvidos como nos ouvidos do profeta Isaías.

“Ouvi a voz do Senhor que me dizia: Quem hei de enviar? Quem irá por nós? Ao que respondi: eis me aqui, envia-me a mim.” (Is 6,8)

O chamado de Deus é relacional, inclui a escolha divina e a liberdade humana em responder. Ao dizer sim ao Senhor, a pessoa está se colocando a serviço, pois está ao dispor do envio divino ao destinatário da missão que é o povo. A disponibilidade em colocar-se a caminho exige abertura e metanoia, um processo de conversão. A vocação é um itinerário de escuta, de acolhimento e da prática da Palavra de Deus que ressoa a cada dia nos ouvidos, na mente e no coração, gestando-se nas entranhas do/da vocacionado/da.

Vocação é um chamado a sentir o odor dos perfumes suaves do amado, que convida a celebrar a vida do projeto. Vocação é seguir os rastros do Mestre de Nazaré no caminho da compaixão e da misericórdia, com os mais vulneráveis, habitando nas tendas dos pobres, difundindo o perfume da consagração ao Deus da vida. A descoberta da vocação passa por um discernimento onde os gemidos da Divina Ruah se faz ouvir juntamente aos gritos da terra, dos ecossistemas, sobretudo em nosso tempo em que as mudanças climáticas nos desafiam como um apelo insistente do clamor da criação devastada pelo olhar e ambição dos prepotentes e despudorados das nações, que rompem com os liames que tecem os laços do coração e do cérebro, no respeito a diversidade a multiculturalidade do universo.

Vocação é um permanente dizer: “eis-me aqui, envia-me a mim”, a cada escuta da voz de Jesus Cristo, que ressoa como trombeta em nossos ouvidos, mas, também como brisa suave em nossas mentes, acariciando o nosso coração. Vocação requer o nosso olhar voltado na direção da voz e da realidade, que nos convidam a nos levantar e a olhar nos olhos e nos pertencermos. Vocação é um pertencimento a Deus e a missão por Ele, a nós conferida que nos enche de esperança e alegria, na unidade e na comunhão, no dinamismo da solidariedade.

Vocação e missão se entrelaçam e se misturam dentro de um mesmo vaso de alabastro e se derramam nas vielas mais remotas, nos campos, nas cidades pelo censo esquecidos, mas, habitados pelo coração da Trindade Santa em seu movimento de abrangência singular. Vocação é um pacto entre Deus e a pessoa que se torna visível em seu sim através da missão. O papa Francisco afirmou que,

“a vocação nunca é um tesouro que fica fechado no coração, mas cresce e se fortalece na comunidade que crê, ama e espera. E como ninguém pode responder sozinho ao chamado de Deus, todos temos necessidade da oração e do apoio dos nossos irmãos e irmãs. “A Igreja é viva e fecunda quando gera novas vocações. E o mundo, muitas vezes inconscientemente, procura testemunhas de esperança que anunciem com a vida que seguir Cristo é fonte de alegria. Não nos cansemos de pedir ao Senhor novos operários para a sua messe, certos de que Ele continua chamando com amor” (2025).

Portanto, viver a vocação é ser sentinela de uma noite em gestação de um novo dia, banhado pela luz solar, que chega iluminando a todos indicando caminhos novos a seguir. A vocação se abre a um horizonte outrora desconhecido, mas, agora apresentado sob a clareza da Palavra de Deus e do sopro do Espírito. Como escreveu o Papa Francisco:

“Toda a vocação, sentida na profundidade do coração, faz germinar uma resposta como impulso interior ao amor e ao serviço, como fonte de esperança e caridade e não como busca de autoafirmação. Vocação e esperança entrelaçam-se, portanto, no projeto divino pela alegria de cada homem e mulher, todos eles chamados em primeira pessoa a oferecer a sua vida pelos outros (cf. Exort. ap. Evangelii gaudium, 268). São muitos os jovens que procuram conhecer o caminho que Deus os chama a percorrer: alguns constatam – muitas vezes com surpresa – a vocação ao sacerdócio ou à vida consagrada; outros descobrem a beleza da chamada ao matrimónio e à vida familiar, bem como ao empenho pelo bem comum e ao testemunho da fé entre colegas e amigos”. (lembrado por Papa Leão XIV, 2025)

Viver a vocação hoje, seja na Família, na Vida Consagrada, no Sacerdócio ou Leiga, requer uma espécie de kénosis para acolher o chamado de Jesus Cristo como “sentinela da esperança em tempos de travessia”. Os desafios que emergem dos gritos dos inocentes mortos e mutilados pelas guerras, do meio ambiente devastado ecoam em nós.

Vocação é a profecia divina se cumprindo no coração da história. Celebremos as vocações na Igreja como “sentinelas de esperança”.

Parabéns a todos/as vocacionados/das.

 


Irmã Maria Freire da Silva

Diretora Geral Congregação das Irmãs do Imaculado Coração de Maria.
Bacharel e mestra pela Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, de São Paulo e doutora em Teologia Dogmática pela Pontifícia Universidade Gregoriana, Roma, Itália.

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