Artigo Mensal: Vida e Martírio de Santo Apolinário

Desde o início, a Igreja sofreu perseguição e martírio por viver a dinâmica da Cruz-Ressurreição de Jesus Cristo. Muitos homens e mulheres deram testemunho de fé até as últimas consequências, superando o medo e se entregando à morte na fidelidade ao Projeto de Jesus. É nesse contexto que se insere a história de Santo Apolinário, que nos leva diretamente às origens do cristianismo. Embora os detalhes exatos de sua trajetória misturem história e antigas tradições da Igreja, ele é amplamente venerado como o primeiro bispo de Ravena, na Itália, e um dos grandes mártires do século I (ou início do século II). Sua memória litúrgica é celebrada no dia 20 de julho.

Apolinário nasceu em Antioquia da Síria (região que hoje pertence à Turquia). De família pagã, sua vida mudou radicalmente ao conhecer o apóstolo São Pedro, que pregava na região por volta do ano 44 d.C. Profundamente tocado pelas palavras de Pedro, Apolinário converteu-se ao cristianismo e decidiu segui-lo até Roma.

Dada a sua grande virtude e zelo, São Pedro o consagrou bispo e o enviou em missão para a cidade de Ravena, no norte da Itália, que na época abrigava uma importante base militar e naval do Império Romano (em Classe). Chegando lá como um estrangeiro, ele começou a pregar o Evangelho e a operar milagres que converteram muitos pagãos. Um dos episódios mais marcantes de sua biografia conta que ele foi chamado à casa de um patrício rico chamado Rufo para curar sua filha doente. Logo após a entrada de Apolinário, a jovem faleceu. Confiante, o bispo pediu que a família prometesse não impedir a jovem de seguir a Cristo caso ela revivesse. Diante da promessa, Apolinário orou e a jovem ressuscitou, gerando a conversão de toda a família e de uma multidão na cidade.

No entanto, o rápido crescimento da comunidade cristã sob o pastoreio de Apolinário irritou profundamente as autoridades romanas e os sacerdotes pagãos dos templos locais (particularmente o de Apolo). Por recusar-se rigidamente a oferecer sacrifícios aos deuses romanos, o bispo enfrentou décadas de perseguições constantes: foi espancado brutalmente e exilado da cidade diversas vezes. Em uma das ocasiões, foi forçado a caminhar descalço sobre brasas ardentes. Foi exilado em regiões como a Grécia ou áreas do Danúbio; mesmo assim, ele nunca parava de pregar, sendo por vezes torturado e reenviado de volta à Itália por navio.

Por volta do ano 79 d.C. (durante o reinado do imperador Vespasiano), os pagãos invadiram o local onde Apolinário celebrava a liturgia. Ele foi arrastado pelas ruas e espancado de forma tão violenta que não resistiu aos ferimentos, vindo a falecer sete dias depois, cercado por seus fiéis, a quem continuou ensinando até o último suspiro. Seu episcopado em Ravena durou quase trinta anos.

No local de seu martírio, no antigo porto de Classe, foi erguida séculos mais tarde uma das obras-primas da arquitetura paleocristã, famosa por seus mosaicos deslumbrantes.
 

Ela foi construída no início do século VI, por iniciativa do bispo Ursicino e financiada pelo rico banqueiro Juliano Argentário, sendo consagrada em 549 d.C. pelo arcebispo Maximiano. O nome “em Classe” se deve à sua localização: ela foi erguida no local do antigo porto romano de Classe (do latim Classis, que significa  frota), o segundo porto mais importante do Império Romano. 

A Basílica de Santo Apolinário em Classe (em italiano, Basilica di Sant’Apollinare in Classe) é um dos monumentos paleocristãos mais extraordinários do mundo, declarada Patrimônio Mundial da Humanidade pela UNESCO, em 1996.


Irmã Maria Freire da Silva

Diretora Geral Congregação das Irmãs do Imaculado Coração de Maria.
Bacharel e mestra pela Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, de São Paulo e doutora em Teologia Dogmática pela Pontifícia Universidade Gregoriana, Roma, Itália.

 

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