As Crônicas da Alma
O Eco e a Promessa: Memória e Profecia
(A Partir do texto; “Esther, a jovem que salvou o seu Povo” de autoria da Ir. Maria Freire da Silva)
Nas paredes de mármore e ouro da corte,
A noite trazia o silêncio e o temor.
Ester meditava o limite da sorte,
Dividida entre o plano, o povo e o amor.
Perto dali, sob a lâmpada acesa,
O rei pedia o Livro da Memória:
Pois o tempo resgata, na sua justeza,
O nome esquecido que muda a história.
Mardoqueu, na porta, sem honra ou troféu,
Aguardava o relógio que o céu já traçara;
Pois quem guarda a raiz sob a força do véu,
Vê a justiça brilhar na hora mais rara.
Enquanto isso, nos corredores do ego,
Amã caminhava no escuro da mente.
Um rei sem teto, um narciso cego,
Desejando a coroa desmedidamente.
Pediu vestes reais, o cavalo, o esplendor,
Pensando ser ele o homem honrado,
Sem saber que desenhava, em delírio e ardor,
O triunfo do rival por ele odiado.
O hipocampo em chamas, o peito em prisão,
Pediu a altura para o próprio fim;
A pretensão é o cárcere do coração,
Que cultiva espinhos no próprio jardim.
Vem o banquete, o vinho, o véu da intenção,
Ester, sutil, desatou a profecia.
Não usou a espada, mas a paciência da mão,
Transformando o banquete em revelação no dia.
Ao expor o perseguidor e sua malvadeza,
A memória dos pais fez-se voz e trovão:
A órfã tímida ergueu-se em grandeza,
Fez do afeto do rei sua proteção.
O carrasco caiu sobre o próprio divã,
Cego de medo, sem luz na pupila;
A forca que Amã mandou erguer
Tornou-se a sombra que o mundo aniquila.
O edito de morte virou-se em festa,
As cento e vinte e sete províncias viram a luz.
Pois a verdadeira profecia é a que resta
Quando a memória de um povo conduz.
Ester não foi apenas o rosto, a beleza,
Foi a inteligência que não se curvou;
Usou o protocolo, a lei, a sutileza,
E a história dos seus ela nunca negou.
A memória resgata o que o tempo cobriu,
A profecia projeta o amanhã libertado:
Onde o orgulho humilhado por fim sucumbiu,
O povo da aliança caminha honrado.
O tempo é um fio estendido no espaço,
onde o ontem e o amanhã se dão as mãos.
A memória não é poeira nem cansaço,
é a fé, raiz que sustenta o chão dos irmãos.
Guarda o eco dos passos, a pedra, o altar,
o fogo antigo que não deixou de queimar.
Mas a história não mora no que já passou;
ela corre nas veias do instante presente.
A profecia não é o mistério que sobrou,
é o fruto maduro brotando da semente.
Não prevê o destino em nuvens de fumaça,
mas decifra os sinais e a dor que nos perpassa.
Profetizar hoje é erguer a voz clara
no meio do ruído, do caos e do vento.
É honrar o passado que a alma amparou,
transformando a lembrança em movimento.
Pois quem lembra de onde veio com verdade,
enxerga a aurora e constrói a cidade.
—

Irmã Maria Freire da Silva
Diretora Geral Congregação das Irmãs do Imaculado Coração de Maria.
Bacharel e mestra pela Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, de São Paulo e doutora em Teologia Dogmática pela Pontifícia Universidade Gregoriana, Roma, Itália.
