A Bênção é concebida como comunicação da vida por parte do Senhor Deus. A Bênção traz fecundidade para a criação, a humanidade, os animais e a colheita. “No primeiro relato da criação, Deus abençoa as aves, os peixes (Gn 1, 22), os homens e as mulheres (Gn 1, 28); 5, 2); provavelmente, uma forma anterior do relato continha uma bênção para os animais”. Percebe-se que cada uma das bênçãos vem acompanhada pela ordem de serem fecundos e se multiplicarem. Deus abençoou o sétimo dia (Gn 2, 3), significa que fez dele uma fonte de bênçãos. Noé foi abençoado após o dilúvio juntamente com seus filhos; bênção inserida na linha da fecundidade e da multiplicação. Os patriarcas Abraão (Gn 12, 2-3) e Isaac (Gn 26, 3-4) e Jacó (Gn 28, 13ss) também foram abençoados. No livro do “Deuteronômio, a bênção é frequentemente apresentada como recompensa pela observância da lei de Deus” (11, 26ss; 15, 4.18).
A fórmula solene da Bênção é pronunciada por uma pessoa que, em certo sentido, representa Deus. A Bênção do pai ao primogênito assumia uma grande importância, basta verificar a Bênção de Esaú interceptada por Jacó (Gn 27, 28-29). Jacó abençoou os filhos de José (Gn 48, 15), assegurando-lhe uma numerosa descendência e conferindo ao primogênito os direitos de Efraim. No Novo Testamento, o sentido da Bênção está relacionado normalmente ao sentido do Antigo Testamento. Nos Evangelhos, Jesus abençoa os alimentos na multiplicação dos pães (Mt 14, 19; Mc 6, 41; 8. 7; Lc 9, 16) e na instituição da Eucaristia (Mt 26. 26; Mc 14, 22).
Ao concluir suas cartas, Bárbara sempre o faz com a Bênção da Trindade. No entanto, em 1868, na oitava do Natal, a Bênção aparece como ápice e uma espécie de coroamento de seu projeto, numa afirmação da Presença trinitária de Deus, numa consciência sempre crescente do ser de Deus em suas relações pericoréticas, articulando a vida ad intra com a vida ad extra da Trindade:
“…abençoe-vos Deus Pai que vos criou e que, desde toda eternidade, vos escolheu para serdes esposas de seu único Filho, Jesus Cristo; abençoe-vos Deus Filho que, com todo amor, vos escolheu por esposas e, na Redenção, quando derramou o seu Preciosismo Sangue, lembrou-se, especialmente, de cada uma de vós; abençoe-vos o Espírito santo que vos santificou para serdes um templo digno de receber, como esposas, todas as graças e dons para bem corresponder. Permaneça entre vós a SS. Trindade e toda a Corte Celestial e que vos ajudem a lutar, a sofrer e a amar até a morte! Amém! Amém”.
Sem dúvida, essa bênção tem uma estrutura metodológica e epistemológica muito bem trabalhada, definida no que se refere à sua fidelidade à elaboração teológica dos primeiros séculos e a teologia posterior.
a) O primeiro direcionamento à Pessoa do Pai como Criador mantém fidelidade à ortodoxia da fé, referente ao primeiro artigo do Credo em seu objeto formal, tanto a respeito da divindade das três pessoas, como à correspondente obra salvífica. A comunidade primitiva sempre se dirigiu em sua oração ao Pai pelo Filho no Espírito Santo. A Fórmula está presente no Tratado sobre o Espírito Santo de Basílio de Cesaréia. Há também o reconhecimento do Pai como o Criador e para quem Ele cria, está em consonância com a revelação bíblica que afirma: “…porque nele foram criadas todas as coisas” (Cl 1, 16). Ainda afirma Tertuliano: “A regra de fé consiste em crer que existe um só Deus, um só Criador do mundo, o qual, mediante o seu Verbo, que desceu ao princípio, criou todas as coisas” . Bárbara acrescenta na fórmula a expressão: “desde toda eternidade”, o que traz presente o “ser sem princípio, e o ser eterno do Pai.”.
b) O segundo direcionamento à pessoa do Filho que emerge como Aquele com quem a comunidade é esposada: o Redentor que derramou seu próprio sangue por amor. Traz implícita a consciência da configuração com o Filho como discípulas, através dos esponsais. Isso vem articulado com a segunda parte do símbolo introduzida na confissão de fé em Jesus Cristo, caracterizado como o único Filho de Deus Pai e nosso Senhor . O vocábulo único, aplicado ao Filho de Deus na fórmula da bênção que Bárbara adotou, traz à tona a certeza que ela tem a respeito da filiação divina de Jesus Cristo tão discutida na teologia do IV Século, no Concilio de Nicéia I (325) e que, com a teologia liberal do século XIX, estava novamente na reflexão teológica o discurso sobre a cristologia descendente, isto é, relacionada mais à dimensão humana de Jesus, a chamada Jesuologia, com relevância do dado antropológico, a questão da humanidade de Jesus .
c) O terceiro direcionamento à Pessoa do Espírito Santo, onde Ele se manifesta como aquele que santifica, que transforma a pessoa humana em templo digno de receber todas as graças e dons que levam à correspondência dos esponsais. Essa compreensão está em consonância com a afirmação joanina a respeito do Espírito: “…conduz a verdade plena: Ele é o Espírito da verdade (Jo 16, 13)”. Bárbara percebe a comunidade como um espaço onde as Irmãs santificadas pelo Espírito tornam-se “Templos dignos”. Como afirmou Yves Congar: “O Espírito suscita nos fiéis o sentimento de uma comunhão em virtude da qual, pela fé e pelo amor, eles estão em Deus e Deus neles (1Jo 4, 13).”.
A conclusão da bênção: “Permaneça entre vós a SS. Trindade e toda a Corte Celestial e que vos ajudem a lutar, a sofrer e a amar até a morte! Amém! Amém!”, retrata e reforça a consciência de que o Projeto é da Trindade, que deve ser o modelo no cotidiano, seja na luta, no sofrimento e na experiência amorosa até as últimas conseqüências: a morte. O Amém repetido reforça seu Sim dado a esse Projeto. Nesse terceiro direcionamento, há uma articulação intensa em relação à cristologia e à pneumatologia. O Espírito age como santificador em função dos esponsais típicos da dimensão cristológica. Uma característica importante do soneto é a ordem em que os versos rimam, ou o posicionamento de rimas. Para os quartetos, existem três formas principais de posicionamento.
Portanto, é possível afirmar que Bárbara, em sua visão trinitária de Deus, se inclui na dinâmica pericorética. É uma compreensão fascinante da vida trinitária divina que tem consequência na vida humana. Teologia e antropologia estão entrelaçadas. A Trindade surge como modelo social-comunitário no entrelaçamento consequente da vivência inter-relacional: “…a fim de que todas sigam o Espírito Santo e se unam fortemente entre si”. A sociologia trinitária acontece dentro de uma verdadeira comunhão, onde o fundamento da igualdade é de fato a imagem inter-pessoal que a Trindade divina imprime em cada Irmã: Deus reproduz seu rosto trinitário no íntimo de cada pessoa criada. Somente assim o homem e a mulher são capazes de ser imagem e semelhança de Deus, e de andar, como dizia Bárbara, no caminho traçado por Deus: “…fora do caminho que Deus traçou…”.

Irmã Maria Freire da Silva
Diretora Geral Congregação das Irmãs do Imaculado Coração de Maria.
Bacharel e mestra pela Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, de São Paulo e doutora em Teologia Dogmática pela Pontifícia Universidade Gregoriana, Roma, Itália.
