A abertura do Conselho Plenário Geral das Irmãs do Imaculado Coração de Maria foi marcada por um chamado à escuta do tempo presente, à renovação e à fidelidade profética ao Carisma. Em sua mensagem, a Diretora Geral, Irmã Maria Freire da Silva, situou o encontro como um momento importante no caminho que conduz a Congregação ao XXI Capítulo Geral Ordinário.
Ao olhar para os desafios do mundo e para as transformações vividas pela própria Congregação, Irmã Maria Freire destacou que a reconfiguração vai além de mudanças estruturais: “qualquer reconfiguração estrutural, geográfica ou administrativa será estéril e ilusória se não for, essencialmente, uma reconfiguração em Cristo”, disse.

A mensagem também aborda a missão da Vida Religiosa diante das mudanças sociais e tecnológicas, a defesa da dignidade humana, a sinodalidade, a cidadania e a necessidade de retornar às fontes do Carisma sem permanecer presa ao passado. Maria, Mulher Discípula-Missionária, e a Bem-Aventurada Bárbara Maix aparecem como referências para uma Congregação em permanente saída missionária.
“Que este Conselho Plenário Geral seja um espaço de escuta do Espírito, de discernimento livre, corajoso e fraterno, onde a esperança vença qualquer receio”, desejou a Diretora Geral.
Leia, na íntegra, a mensagem de abertura do Conselho Plenário Geral
Queridas Irmãs deste Conselho Plenário Geral,
Reunimo-nos hoje sob a sombra protetora da graça de Deus e conduzidas pela força do Espírito Santo para vivenciar um marco fundamental na caminhada histórica de nossa Congregação. Abertas à escuta do tempo presente, olhamos para a realidade que nos cerca e percebemos que o nosso mundo clama, com uma urgência visceral e dolorosa, pelo dom da Paz. Atravessamos um contexto mundial político, social e econômico profundamente fragmentado, ferido por polarizações extremas, guerras devastadoras, injustiças sistêmicas e pela violação contínua da dignidade humana em suas bases mais vulneráveis.
Em meio a essas sombras contemporâneas, a humanidade presencia uma revolução antropocêntrica sem precedentes impulsionada pela Inteligência Artificial e pela aceleração das novas tecnologias. Se, por um lado, o ecossistema digital nos acena com possibilidades de integração, eficiência e conectividade global, por outro, ele escancara o risco do isolamento existencial, do esvaziamento do sentido e da mercantilização da vida. É exatamente nessa era hipertecnológica que a nossa inteligência humana, sensível, empática e crente é convocada a dar uma resposta profética e contracultural.
As máquinas e os algoritmos podem processar dados imensos e otimizar rotinas administrativas, mas somente o espírito humano, habitado e modelado pelo Amor de Deus, é capaz de reconfigurar as relações humanas em chave de ternura, solidariedade e comunhão profética. A nossa vocação de consagradas nos chama a gestar uma nova humanidade — aquela que recusa a frieza do cálculo, não substitui o encontro verdadeiro pelo clique e resgata o valor insubstituível da presença, do abraço e da escuta compassiva.
Diante de uma sociedade sufocada pela incerteza, pela perda de sentido e pelas relações descartáveis, ecoa em nossos corações, com renovada força e vigor, o apelo do Papa Leão à Vida Consagrada: somos intimadas a ser oxigênio na vida do povo e no corpo da Igreja. A vida religiosa não foi chamada para a autorreferencialidade, para a manutenção de estruturas obsoletas ou para o refúgio estéril nas zonas de conforto do passado. O oxigênio não se deixa aprisionar; ele circula livremente, purifica o ambiente, renova o sangue, devolve a vitalidade e alerta a vida onde o ar da desesperança, da exclusão e da violência insiste em sufocar os mais fracos.
Para nos tornarmos essa brisa purificadora e cheia de vida, o Evangelho nos pede a coragem de nascer de novo (Jo 3,3). A inquietação de Nicodemos ressoa profundamente nesta sala: como renascer quando o tempo parece consumido? O Espírito Santo sopra onde quer e como quer, desinstalando-nos da tentação de nos agarrarmos a garantias consolidadas do passado quando o presente exige intrepidez e renovação vital. Nascer de novo exige o desapego radical de nossas certezas, a humildade para reaprender e a fé para nos lançarmos no abraço de Deus, sabendo que as velhas respostas e fórmulas já não respondem às buscas e aos sofrimentos do mundo atual. Somos herdeiras de uma Tradição que traz no seu interior a Seiva do Carisma. Retornar as Fontes não é ficar no passado habitado por saudades, mas, pegar nas mãos a seiva da memória no movimento que a possibilitou e historicizar a razão da Congregação existir na força da Profecia. Reconfigurar é encontrar o Tudo que está diante de mim que me olha, é a busca de ser encontrada por Jesus e, no corpo a corpo participar do mistério do Seu amor. (Cardeal Leonardo Ulrich Steiner).
Nesse itinerário de profunda renovação, a figura de Maria ergue-se diante de nós como o modelo vivo da Mulher Discípula Missionária. Ela não é uma figura estática ou passiva, mas a mulher do pé no chão, do Ouvido atento e coração totalmente aberto à voz do Espírito Santo. Maria é a Discípula que sabe discernir as interpelações de Deus nas brisas sutis e nas tempestades da história, deixando-se conduzir sem impor condições. Essa docilidade ao Espírito desperta nela uma sensibilidade apurada e visceral para com o clamor dos pobres. No seu Magnificat, a Mulher-Missionária canta a justiça de Deus que derruba os poderosos de seus tronos e exalta os humildes, assumindo a dor e a esperança dos marginalizados como sua própria causa. Na Visitação, ela não hesita: põe-se apressadamente a caminho, cruzando montanhas e fronteiras para fazer da sua presença um ato concreto de serviço, cuidado e libertação. É essa Maria — mulher de escuta, de pé a caminho e compassiva diante das fendas da humanidade — que nos ensina a ser uma Igreja e uma Congregação em permanente saída missionária.
Guiadas pelo Imaculado Coração de Maria, Mulher Discípula-Missionária, vivenciamos este Conselho com o olhar fixo no processo do Ano Capitular e na proximidade do nosso Capítulo Geral. Este encontro não é uma mera etapa formal ou isolada em nosso calendário, mas sim o coração pulsante de um caminho comunitário de discernimento que amadurece e prepara a nossa grande assembleia capitular. É o tempo favorável para cultivar a sinodalidade não como um momento passageiro, mas como o nosso modo constitutivo e essencial de ser, decidir e atuar. Caminhar juntas, praticar a escuta empática do grito que vem de cada comunidade e acolher a riqueza de nossa diversidade cultural e geracional é a única via para discernir os caminhos do Reino para a nossa Congregação, no Coração da Igreja e da Sociedade.

Esse espírito de conversão e escuta sinodal ganha corpo e visibilidade nas decisões históricas que amadurecem neste processo: a Supressão das Províncias e a Reconfiguração da Congregação. Contudo, faz-se imperativo cultivar uma clareza teológica e espiritual cristalina: qualquer reconfiguração estrutural, geográfica ou administrativa será estéril e ilusória se não for, essencialmente, uma reconfiguração em Cristo. A Reconfiguração não é um mero plano de reestruturação organizacional, uma estratégia de contenção de custos ou um rearranjo de quadros missionários. É, antes de tudo, um processo de conversão pessoal e comunitária, no qual nos deixamos revestir dos mesmos sentimentos que habitaram o Coração de Jesus Cristo. É a partir dessa ancoragem profunda no Ressuscitado que encontramos a liberdade interior, para desmantelar estruturas que já cumpriram o seu ciclo histórico, libertando as nossas energias para uma comunhão mais fraternal, uma gestão solidária de nossos bens e uma presença missionária mais ágil, profética e incisiva junto às periferias humanas e existenciais.
No horizonte da reconfiguração congregacional, a articulação entre a Missão Educação, a Assistência Social e a Animação Missionária, consolida-se como o eixo profético e transformador do nosso Carisma. Ao unir a formação integral da pessoa no espaço educativo, a promoção da dignidade e garantia de direitos na ação social, e o testemunho evangélico encarnado junto às periferias existenciais e geográficas, a Congregação responde aos apelos do tempo presente não por meio de estruturas isoladas, mas através de um corpo de unidade e comunhão. Essa convergência tridimensional ressignifica nossa presença eclesial, garantindo que o saber formador e a solidariedade libertadora estejam permanentemente enraizados nas relações e na proximidade humanizadora.

Portanto, “Sonhar é necessário. Como escreveu Rubem Alves em Religião e repressão, há um “direito de sonhar”. Esse direito resiste à troca moderna da incerteza pelo conforto — à renúncia da imaginação em favor de um racionalismo rígido: Sonhamos com o voo, mas temos medo das alturas. Para voar, é preciso amar o vazio. No entanto, as pessoas preferem as gaiolas ao voo porque as gaiolas contêm certezas” “… Inovar, como voar, exige a coragem de abandonar as certezas e acolher horizontes abertos”. É preciso escutar o não dito que nasce do vazio, aonde a Ruah Divina costuma soprar.
Não podemos, ademais, abstrair o fato de que trilhamos este itinerário congregacional em um ano eleitoral decisivo em nosso país. A nossa fé encarnada e o nosso Carisma nos convocam a renovar o compromisso ético e evangélico com a cidadania consciente e ativa. Ser oxigênio na sociedade de hoje implica também atuar como voz profética na defesa intransigente da democracia, dos direitos humanos, da justiça social e do bem comum, posicionando-nos claramente contra todas as formas de opressão e ao lado daqueles cujos direitos e dignidade são sistematicamente violados.
Que a Bem-Aventurada Bárbara Maix, que a exemplo de Maria, Mulher Missionária e Discípula, fez de sua vida uma busca incansável e apaixonada pela Vontade de Deus, mantendo-se sempre em atitude de saída, de escuta dos gritos de sua época e de promoção incondicional da vida, seja a nossa intercessora e guia neste caminho capitular. Que este Conselho Plenário Geral seja um espaço de escuta do Espírito, de discernimento livre, corajoso e fraterno, onde a esperança vença qualquer receio e onde renovemos a nossa entrega incondicional a Deus e ao Seu Povo.
Sob o olhar e a proteção de Maria, Mulher Missionária e Discípula, declaro aberto o nosso Conselho Plenário Geral.
Irmã Maria Freire da Silva
Diretora Geral
