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MissãoOutubro · 2026

O Capítulo Geral da Congregação das Irmãs do Imaculado Coração de Maria

Artigo Mensal da Diretora Geral ICM, Irmã Maria Freire da Silva

Por Irmã Maria Freire da Silva

Diretora Geral da Congregação das Irmãs do Imaculado Coração de Maria

Comunicação ICM

"A SS Trindade iniciou a Obra da Fundação e há de completá-la”
(Bárbara Maix).


Chegou o mês de outubro, mês dedicado às missões e esse ano, o Papa Leão XIV exorta toda a Igreja a rezar pela saúde mental. A UISG, a União Internacional das Superioras Gerais também está alinhada à exortação papal. Estamos às portas da Celebração do Capítulo Geral Ordinário da Congregação das Irmãs do Imaculado Coração de Maria. O Capítulo é o evento proeminente de governança, reflexão e renovação espiritual-missionária na vida de uma Congregação ou ordem religiosa dentro da Igreja Católica. Tratado pelo Direito Canônico como a autoridade extraordinária máxima de um Instituto de vida consagrada, o Capítulo representa o momento em que a família religiosa faz uma pausa comunitária para discernir a vontade de Deus em relação ao seu presente e ao seu futuro.

Os três pilares de um Capítulo Geral

1. Dimensão e Função Principal:

1) Espiritual e Carismática, que tem como função reavaliar a fidelidade ao Carisma do fundador frente aos desafios do mundo atual em fidelidade criativa no seguimento a Jesus Cristo.

2) Comunitária e Discernimento, tem como objetivo promover a escuta mútua, a avaliação da vida dos membros e o discernimento pastoral-missionário coletivo.

3) Jurídica e Administrativa, eleger o/a Superior Geral e seu Conselho, e atualizar os estatutos ou Constituições da Congregação.

O Sentido Profundo e Teológico

1. Um Processo de Discernimento Comunitário

Diferente de uma assembleia corporativa ou de um parlamento político, o Capítulo Geral não se baseia na simples vitória de maiorias ou grupos de interesse. É um exercício de sinodalidade e de escuta ao Espírito Santo de Deus. As delegadas eleitas que representam todas as Irmãs, regiões e missões da Congregação no mundo onde se encontra, reúnem-se para perguntar coletivamente: “O que Deus está pedindo da nossa Vida Consagrada hoje?”

2. Atualização do Carisma em Fidelidade Criativa

Cada Congregação nasce de um Carisma um dom específico do Espírito Santo dado ao fundador/a para responder às necessidades de uma época: educação, cuidado com doentes, contemplação, missão além fronteiras, compromissos com os pobres, os mais vulneráveis da sociedade. O Capítulo Geral é o espaço, a casa, onde esse Carisma é reinterpretado para o tempo presente. Como ensinava a Igreja no Concílio Vaticano II, o objetivo é manter o Carisma vivo, mantendo uma fidelidade criativa às origens.

3. Renovação da Liderança e das Linhas de Ação

O Capítulo exerce a função legislativa e eletiva máxima, escolhe a Diretora Geral e o Conselho para um mandato específico. Define as prioridades e processos, compromissos que orientarão toda a Congregação nos anos seguintes (geralmente nos 6 anos subsequentes). Faz avaliação de Projetos e Finanças, analisa a ação, as vocações, a formação e a administração dos bens do Instituto.

O Capítulo Geral representa a comunhão de toda a Congregação representada em seus delegadas, renovando o compromisso de caminhar juntas como testemunhas do Evangelho no coração da Igreja e do mundo. O Capítulo Geral não é apenas uma reunião administrativa, mas um verdadeiro tempo de graça (kairós), no qual a Congregação se oxigena, reconcilia-se com sua história, assume suas fragilidades e projeta-se com esperança e coragem rumo ao futuro da missão.

Aprofundar o Capítulo Geral em sua dimensão de graça do Espírito Santo e, em sua eclesialidade é tocar no coração teológico do que distingue essa assembleia de qualquer reunião humana ou corporativa. Quando despido de visões meramente organizacionais, o Capítulo revela-se como um evento verdadeiramente humano e divino, onde a ação divina e o discernimento humano se encontram. O Capítulo Geral como Dom e Graça do Espírito Santo (Kairós). O Capítulo Geral não é apenas um evento cronológico (chronos), mas um tempo de visitação de Deus, um verdadeiro kairós. Nele, a Congregação coloca-se em atitude de oração e de escuta para captar os sopros da Divina Ruah.

O Espírito é o Protagonista o verdadeiro Presidente de um Capítulo Geral. A função das Capitulares as delegadas, não é defender pautas individuais, mas purificar a escuta para perceber para onde a nuvem do Espírito está se movendo no deserto da história atual. O discernimento capitular exige docilidade espiritual. Não se trata de uma negociação política para alcançar consensos humanos, mas de um processo de conversão comunitária. O Espírito Santo atua desinstalando certezas ultrapassadas, curando feridas do corpo Congregacional e insuflando a audácia necessária para assumir novas fronteiras missionárias. Cada Capítulo Geral é vivenciado como um "novo Pentecostes" para o Instituto religioso. Assim como os apóstolos reunidos no Cenáculo, a comunidade capitular reúne-se em oração com Maria de Jesus, para acolher o fogo que renova as forças, rompe o medo do futuro e concede o dom da profecia para falar aos homens e mulheres de hoje na sua própria linguagem.

2. A Dimensão Eclesial do Capítulo Geral

Nenhuma Congregação ou ordem religiosa existe como uma "ilha" autônoma; o Carisma de um Instituto é um dom dado pelo Espírito Santo à Igreja e para a Igreja. Por isso, o Capítulo Geral é um ato profundamente eclesial. Acontece no Coração da Igreja de forma que a renova com sua renovação e atualização do Carisma na propagação do Evangelho.

A. Inserção no Corpo Místico e Sinodalidade

O Capítulo reflete a própria natureza da Igreja como Comunhão. Nele se expressa o princípio da sinodalidade (caminhar juntos): religiosos e religiosas de diferentes culturas, gerações e realidades sociais sentam-se à mesma mesa. Essa diversidade unida pela mesma vocação torna o Capítulo um microcosmo eclesial, testemunhando que o Evangelho supera barreiras culturais e geográficas.

Sintonia com o Magistério e as Necessidades da Igreja

Um Capítulo verdadeiramente eclesial não olha apenas para dentro do próprio instituto (umbigo da congregação), mas olha para o mundo com os olhos da Igreja: escuta dos Apelos do Papa e do Povo de Deus, A Congregação pergunta-se como o seu Carisma específico pode responder às urgências eclesiais do momento (como o cuidado com os pobres, a ecologia integral, a evangelização das periferias ou o diálogo inter-religioso). Sentir com a Igreja (Sentire cum Ecclesia): as decisões capitulares buscam alinhar os planos de ação Congregacionais com as diretrizes da Igreja Universal e das Igrejas Locais (dioceses) onde a Congregação está presente.

Serviço ao Povo de Deus

A autoridade exercida pelo Capítulo Geral e a renovação por ele promovida não visam à autopreservação da Congregação, mas ao serviço profético ao Povo de Deus. A eleição de novos governantes e a definição de prioridades pastorais-missionárias são gestos de responsabilidade eclesial para garantir que a missão continue a gerar frutos de santidade e transformação social, tanto na educação, na Assistência Social, quanto na Pastoral e na Inserção.

Em Síntese, trabalhar o Capítulo Geral sob estas duas dimensões significa compreender que: como Graça do Espírito Santo, o Capítulo exige oração, silêncio interno, coragem profética e disponibilidade para a conversão e missão. Como Evento Eclesial, o Capítulo reafirma que o Carisma não pertence à Congregação, mas é uma riqueza da Igreja colocada a serviço do Reino de Deus no mundo. O Papa Francisco advertia contra a tentação de se apegar rigidamente a estruturas do passado. Defender o Carisma não significa guardá-lo em uma redoma de vidro, mas reinterpretar as intenções do fundador/fundadora à luz dos desafios contemporâneos. Inspirado pela dinâmica da sinodalidade, Francisco enfatizava que um Capítulo Geral deve ser um exercício prático de escuta mútua e abertura ao Espírito Santo. Diálogo aberto e sem medo. Os membros capitulares devem encarar conflitos e visões divergentes de frente, em vez de mascará-los. As decisões e orientações não devem nascer apenas do Governo Geral, mas da consulta ativa a todas as comunidades. Em suas exortações aos institutos de vida consagrada, Francisco contrapôs firmemente a autorreferencialidade (o foco excessivo na sobrevivência do próprio instituto) ao impulso missionário. A missão de um Capítulo Geral inclui discernir para quais periferias existenciais e geográficas a Congregação está sendo chamada hoje. Reduzir-se numericamente não deve ser causa de desespero, mas um convite a vivenciar a minoridade e a autenticidade evangélica. (PP Francisco)

O Papa costumava lembrar que “a pobreza é a guardiã e a âncora da vida consagrada”. Um Capítulo Geral deve avaliar criticamente o uso e a gestão dos bens materiais do instituto para garantir que continuem a serviço da missão e dos mais pobres, evitando o mundanismo espiritual”. “Os religiosos e religiosas deveriam ser pessoas capazes de despertar o mundo. Para ser moderno, alguém pode acreditar que é necessário se separar das raízes. E essa é a ruína, porque as raízes, a tradição, são a garantia do futuro. Não é um museu, é a verdadeira tradição, e as raízes são a tradição que te levam à seiva para fazer crescer a árvore, florescer, frutificar. Nunca se separar das raízes para ser moderno! Aquilo é um suicídio. ” Como afirmou nossa Fundadora Bárbara Maix, “a SS Trindade iniciou a Obra da Fundação e há de completá-la”. Quando transportada para o contexto de um Processo Capitular (que abrange desde a fase preparatória até a realização do Capítulo Geral), essa frase deixa de ser apenas uma expressão de devoção histórica e passa a atuar como um princípio hermenêutico e espiritual para guiar os trabalhos do Capítulo. Lembramos que o Carisma e a Congregação não surgiram de um projeto corporativo humano, mas da iniciativa amorosa de Deus Pai e Filho e Espírito Santo. A frase resgata o primado da ação divina. O Capítulo não se sustenta no medo, na ansiedade do futuro ou na autossuficiência das capitulares, mas no abandono confiante na Providência, libertando a assembleia da paralisia diante dos desafios contemporâneos.

O Fundamento é trinitário na dinâmica de comunhão e missão. A Santíssima Trindade é a comunidade perfeita, relação de amor, diversidade de Pessoas e unidade de Essência. A "Obra da Fundação" traz inscrita em sua raiz a lógica da comunhão e da missão do Pai-Mãe Criador, do Filho Redentor na dialética da Cruz-Ressurreição e do Espírito Santo Santificador e Renovador, transformador de todas as coisas, na força da profecia.

Afirmar que a Trindade “há de completá-la” revela que a Fundação não é um evento estático congelado no passado do século XIX, mas um processo vivo em constante gestação. O verbo no futuro “há de completá-la” aponta para a esperança teologal e para a transformação histórica. No processo capitular: o Capítulo não existe para "embalsamar" o Carisma de Bárbara Maix, mas para reinterpretar o Carisma nos sinais dos tempos. “Completar a obra” significa discernir onde a Trindade está atuando hoje e onde a Congregação precisa ir para responder às urgências da Igreja e do mundo.

O processo capitular muitas vezes enfrenta realidades duras, diminuição numérica, envelhecimento dos membros, reestruturação de obras. A frase atua como um antídoto contra o pessimismo e a autorreferencialidade: a continuidade e a consumação da Obra não dependem do poder estrutural da Congregação, mas da fidelidade de Deus à sua promessa. Durante o Capítulo, esta máxima convida as participantes a fazerem a transição da autodefesa para o discernimento místico-espiritual, não se trata de salvar a Congregação, mas de ouvir a Santíssima Trindade para entender como ela deseja continuar completando a sua Obra na história hoje, com e através das Irmãs. O objetivo final de um Capítulo como transbordamento da graciosidade trinitária divina, deve nos levar a dizer com os apóstolos: “Pareceu bem ao Espírito Santo e a nós”(At 15,28).

Comunicação ICM

Irmã Maria Freire da Silva
Diretora Geral Congregação das Irmãs do Imaculado Coração de Maria
Bacharel e mestra pela Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, de São Paulo, e doutora em Teologia Dogmática pela Pontifícia Universidade Gregoriana, Roma.





Autoria

Irmã Maria Freire da Silva

Diretora Geral da Congregação das Irmãs do Imaculado Coração de Maria

Bacharel e Mestra pela Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, de São Paulo (SP), e Doutora em Teologia Dogmática pela Pontifícia Universidade Gregoriana, Roma.